Escuridão. Frio. Sombras enormes aproximavam-se cada vez mais. Ela não conseguia respirar. Um hálito ardente tocava seu rosto, queimando-o como brasa. As sombras pareciam engolir as réstias de luz que aventuravam-se a tocá-las. Ela sacudia-se, tentando escapar daquele pesadelo. Sua garganta parecia não funcionar. Uma mão prateada agarrou seu ombro, quase quebrando-o. No auge do desespero, ela ouviu uma, não, várias vozes gritando: “Você é nossa, você nos pertence!”. Estava tudo perdido.
Luísa quase pulou da cama, encharcada de suor. Que pesadelo horrível. O sol reconfortante das primeiras horas da manhã tocou o rosto da menina, como que para acalmá-la. Quente. Alívio. O coração dela, que estava quase saindo do peito, começou a bater devagar, mais devagar. Ela olhou para as paredes, temerosa. Quase podia ver as sombras negras e estranhas aproximando-se. Que sensação angustiante. A moça sacudiu a cabeça, como que para espantar os efeitos do pesadelo. Ao fazer isso, sentiu uma dor lancinante no ombro direito. O mesmo ombro que… não, ela estava sonhando. Foi apenas um pesadelo. Ainda com medo, ela olhou para as paredes do quarto, esperando seja-lá-o-que-for aparecer. Nada. Apenas suas paredes cor de marfim e sua decoração rosa-pink. Ela precisava mudar a cor daquelas paredes. Pareciam tão sem graça, tão… comuns. Luísa pensava em quinze milhões de opções de cores e combinações diferentes, quando seu coração quase parou. Ela podia sentir. Novamente se sentiu observada, vigiada. A mesma sensação de uma semana atrás, quando saíra com suas amigas. Algo ou alguém a estava observando. Alguém que ela não podia ver. Somente sentir.
Siamkr sabia que ela não podia vê-lo. Mas era como se pudesse. Ela acompanhava seus movimentos cautelosamente. Como ela fazia isso? Como aquela simples mortal, Luísa, conseguia sentir sua presença? Ela era especial. Por isso os principados a queriam. Ela seria uma ótima adição à nação Livre. E possivelmente sequer sabia de todo esse potencial. Por isso Siamkr estava ali. Para garantir que ela não passasse para o outro lado. O lado “oposto”. Que também estava agindo, porém menos abertamente. Dava para perceber. Eram ações discretas, mas não imperceptíveis. E a maior arma Siamkr já havia notado. Os opostos quase confiavam inteiramente naquele rapaz, na mudança que ele poderia provocar na moça. Ah, mas era o ponto fraco do plano deles. Aquele inútil franzino Marcos não iria fazer nada. O ataque a ele já estava preparado. Três dos seus compatriotas estavam apenas esperando sua ordem para “cuidar” do humano intrometido. Aliás, para que esperar? Quanto antes, melhor. O canto de sua boca prateada ergueu-se, mostrando alguns dentes perfeitamente delineados, alvos como a neve. Movimento que com algum esforço, poderia ser chamado de “arremedo de sorriso”. O quanto antes, melhor. Nada poderia pará-los. A não ser que… uma possibilidade bem remota passou pela cabeça de Siamkr. Remota, mas não impossível. Estava na hora de montar um plano B. Com um sutil movimento, abriu as asas brancas, da mesma cor da túnica que utilizava. O cinto escarlate quase brilhou a luz ainda tênue do sol das primeiras horas da manhã, contrastando com o tom prateado da pele. Não iria permitir que conquistassem aquela moça. Ela seria muito útil. Saiu rapidamente, decidido. O ataque seria lançado ainda hoje.
Luísa relaxou. O ombro já não doía. Não sabia por que, mas aparentemente, tinha ficado sozinha de novo. Talvez ela estivesse apenas impressionada com o pesadelo. Ou estivesse realmente ficando louca. O que estava acontecendo com ela? Seria melhor pensar em outras coisas. Seu aniversário estava chegando. Ela jamais poderia estar destruída daquele jeito. Imagina como iria ficar sua pele? Falando em aniversário, os convites ainda não foram todos entregues. Algumas pessoas da escola ainda faltam. Meu Deus! A escola! Que horas são? Ah, eu vou chegar super atrasada! Minha mãe vai me matar! Será que ela….
- Luíiiiisa! Você vai chegar atrasada na aula, menina! – veio aquele grito lá da sala.
Quase meio-dia. Sol escaldante. Depois de seis aulas cansativas, tudo que Marcos queria era um bom banho e comida. Os professores pareciam que cobravam cada dia mais. E ele ainda estava no segundo ano. Não queria nem pensar como seria quando chegasse ao terceiro. Vestibular era a pior invenção do ser humano. Mas onde será que meu pai se meteu? O rapaz estava nessas considerações mentais, quando viu Luísa saindo pelo portão principal. Ela parecia abatida. Bonita, como sempre, mas meio para baixo. Pelo que ele a conhecia, ela deveria estar super empolgada com sua festa de aniversário, que ia ser em apenas uma semana. Sentiu um vontade súbita de falar com ela. Respirou fundo e foi. Entretanto, não deu dois passos e uma mão o puxou para trás. Quando se virou, viu três de seus amigos “do racha”, Felipe, Artur e Marcelo.
- Diga aí, grande Marcos! – Felipe disse – faz tempo que a gente não se vê, hein? Como é que vai essa força?
- É, rapaz – continuou Artur – quando vai ser o próximo racha? – Os três eram inseparáveis, desde crianças. Moleques, do tipo bagunceiros, mas bons amigos. Marcos se incomodava um pouco com os palavrões que diziam, mas nada demais. Até soltava um às vezes. Mas estava se policiando.
- Faz uma semana que a gente não racha, cara – completou Marcelo – vamo marcar alguma coisa. Ajeitaram o campim perto de casa, tá só o filé.
Realmente fazia muito tempo. Só de ouvir o nome racha, Marcos já começou a se empolgar. As pernas formigaram, bambearam um pouco.
- É, caras, vamos marcar. Marquem aí, eu estou disponível esses dias todos. – Luísa. Luísa. Ecoava a voz em sua cabeça. Ele apressou-se em terminar a conversa. – ei, caras, eu preciso ir.
- Brother, depois eu queria falar contigo. Pode ser amanhã, na hora do intervalo? – perguntou Artur. Marcos só acenou com a cabeça e apressou o passo, à procura de Luísa. Onde ela se meteu? Ah, lá está ela, na beira da pista. A mãe dela já chegou, droga! O rapaz começou a correr, desviando-se do mundo de alunos que saía do colégio. Subitamente, uma pilha de livros caiu em sua frente e ele quase tropeçou. Uma voz suave chegou ao seus ouvidos, dizendo:
- Opa, desculpe. Mil desculpas. – Era Ana Clara, do segundo ano. Muito bonita. Muito bonita mesmo. Marcos, claro, como bom cavalheiro, abaixou-se para pegar os livros da garota – Obrigada, Marcos – disse ela, encantadoramente.
- Que é isso, de nada. Quanto livro, hein? Estudiosa, você – ia completar com um “e bonita, também” mas se conteve. – seria melhor se você deixasse os livros no armário da escola. Mais prático.
- É verdade. Mas eu gosto de estudar em casa. Sabe como é, vestibular próximo ano. Eu, particularmente, sou muito adepta desse lance de vestibular. Imagina se todo mundo entrasse na faculdade. Seria muito mais complicado, dar aula para um monte de gente…
- Verdade. Vestibular é realmente muito bom e… – Marcos pensou na mentira que estava falando e achou melhor parar por aí. Luísa. Caraca, a Luísa! – a gente se fala depois, Ana. Preciso ir.
- Hum…ok. Tchau e obrigada de novo. – Ela soltou um sorriso radiante e foi embora. Ah, como foi difícil deixar ela ir. Luísa. Luísa! Cadê ela? Marcos só viu o brilho ofuscante do EcoSport da mãe de Luísa indo embora. Não! Putz! Não acredito. Eu tinha que falar com ela… nem sei o que ia falar. Só sei que precisava falar com a Luísa. Ela parecia tão abatida…
Luxos, Chorall e Henth se afastaram de Marcos lentamente. Com um leve movimento, alçaram vôo, deixando o arrasado adolescente para trás. A pele prateada dos três rebrilhava ao sol. O plano se iniciara. A guerra pelas almas daqueles adolescentes tinha começado.
Tyree aproximou-se de Marcos rapidamente. Com uma de suas mãos douradas, afagou o coração e a alma do rapaz, confortando-o. Acalme-se, disse ele, pois K. está contigo. Tudo podes naquele que te fortalece. O adolescente parecia estar bem mais calmo agora. Aproveite essa calma, falou o ser imaterial, pois grandes batalhas se aproximam. O Mestre possui grandes planos para você. Para você e para os adolescentes que o rodeiam.