Tyree voava no céu azul claro, desviando-se das nuvens, que deslizavam com aparência de algodão. O sol rebrilhava nos tetos das casas e prédios daquela grande cidade, ainda com pouca força, um calor agradável. A pele dourada, sobrenatural, ofuscava. O dia estava perfeito. Pelo menos, à vista dos humanos. À vista de Tyree, o dia estava péssimo. Somente ele e os de sua espécie conseguiam ver a ameaça que pairava sobre a cidade. Ameaça disfarçada de prateado e grafite. Os Altivos teriam muito trabalho. Por puro reflexo, o ser imaterial colocou a mão no cabo de sua espada branca. Ainda não era tempo. Se batalhasse contra a sombra prateada dos Livres sozinho, perderia na certa. Tudo aquilo por causa de uma garota.
O que ela tinha de tão especial? Não era a primeira a conseguir sentir a presença deles. Em sua longa existência, Tyree já havia visto esse dom antes. Pessoas mais sensíveis, com maior discernimento que o comum, notavam que não estavam sozinhas. No entanto, toda uma tropa da Nação Livre se encontrava na cidade, com bem mais soldados que o normal. E localizada próximo ao prédio dela. Não estavam de brincadeira. Ela era especial. Os Altivos estavam fazendo sua parte, aproximando-a cada vez mais de Marcos, tentando ser os mais discretos possível. Até ali tinham conseguido. Se tudo desse certo, Luísa iria conversar com ele naquele dia.
Entretanto, Tyree sentia que havia algo mais. Algo que ele não sabia. Algo que poderia ameaçar a vida, não só de Luísa, mas de todos os humanos daquela cidade. Precisava conversar com seu comandante. Precisava conversar com Elthk.
Luísa estava começando a ficar nervosa. Tanta coisa para arrumar. Sua grande festa estava chegando e prometia ser inesquecível. Sua mãe, ranzinza como sempre, não estava ajudando muito, mas pelo menos não se intrometia em suas coisas. Depois de vários anos sendo respondida duramente, Dona Alice não se aproximava mais. As duas eram muito parecidas emocionalmente, e por isso, sempre se chocavam. O pai de Luísa falecera há tempos e as duas tratavam de ignorar o ocorrido. Na verdade, nunca tinham conversado a respeito. Simplesmente empurraram para debaixo do tapete. Por falar em tapete, ela nem tinha visto ainda se o buffet que tinham contratado já tinha arranjado um novo tapete vermelho (na festa anterior a aniversariante tinha feito o favor de rasgar o antigo com seu salto agulha). Talvez fosse melhor ligar para cobrar a cerimonialista. Ou logo para o buffet. Ah, como seria bom se minha mãe me ajudasse nessas coisas…
- Luíiiiisa! – falando nela, olha quem grita lá da cozinha – você está atrasada de novo, menina! Já recebeu duas advertências! Quer ser suspensa? – até que não seria má idéia, assim ela teria mais tempo de resolver os problemas da festa. Claro, que nunca sugeriria isso para sua mãe…ela jamais entenderia desse modo. Uma filha relapsa, ela diria, é o pior dos castigos para uma mãe. Além disso – Luíiiisa! Última chance! – com um suspiro, a garota saiu do quarto rosa pink, com destino ao colégio insuportável.
Marcos não sabia o que dizer. Ela estava lá, parada na sua frente, esperando o elevador. No dia anterior, estava desesperado para falar-lhe. Hoje, a língua travava. Qual o meu problema? Talvez o fato da mãe dela estar me olhando de cima a baixo não ajude muito a destravar minha fala. Calma, Marcos, respire. É a Luísa, poxa. Você consegue.
- Oi, Luísa. Tudo…
- Oi, Marcos – cortou a moça – tudo bem, sim.
Ela parecia estressada. Cansada, talvez? Com raiva? Onde está a Luísa fútil e super-empolgada com sua festa de aniversário? Deu vontade de agarrar a cabeça dela e dizer: “Saia! Este corpo não te pertence!”, mas se conteve. A mãe dela ia ter um ataque de histeria. Por falar nisso…
- Bom dia, dona Alice.
- Bom dia, Marcos. Já falei, me chame apenas de Alice.
- Desculpe, d…Alice.
Mais um interminável momento de silêncio. Qual é o meu problema? Simplesmente fale! Faale! Fala logo! É só abrir a boca e falar! Abre a boca e…
- Tchau, Marcos – disse Alice, saindo do elevador. Luísa apenas acenou e foi atrás da mãe. O rapaz ficou estático, apenas vendo o carro arrancar. Depois de uns cinco segundos, saiu do transe e, num momento de raiva, socou a parede do elevador. Com um “ai!” entredentes, correu para a parada de ônibus. Devia ter pedido carona à mãe de Luísa. Como eu sou lerdo.
- Eu deveria ter oferecido carona ao Marcos – disse Alice, balançando a cabeça – estou preocupada com tanta coisa, que nem consigo pensar direito.
Luísa apenas grunhiu alguma coisa do banco do passageiro. Concordava plenamente com a mãe. Até pensara em fazer isso enquanto estavam no elevador. Mas não conseguiu dizer nada. Era como se sua boca não respondesse. Além do mais, Marcos queria conversar com ela a tempos, e não sabia o que esperar disso. Estava receosa e ansiosa. O que ele queria lhe falar? Será que estava com raiva porque ela estava sendo muito indiferente? Se os rapazes não fossem tão complicados… E se ele quiser… O celular vibrou, tirando-a dos revoar dos pensamentos. Era do buffet. Ah, não. Deve ser o tapete. Aposto como deu tudo errado.
Luxos apoiou-se confortavelmente no banco de trás do EcoSport. Se fosse humano, poderia até relaxar naquele banco. Seu trabalho corria maravilhosamente bem. Com certeza os principados o promoveriam. Os Altivos teriam que se esforçar muito se quisessem que aqueles dois conversassem. Olhou-se invisível no retrovisor, vaidoso. Só existia um lugar onde poderia ver seu reflexo. Nos olhos da menina do banco da frente. E ele faria tudo para conseguir isso.
Marcos saiu quase correndo da sala. Naquele dia, Luísa não ia escapar. Ele ia esperá-la na porta de casa. Atravessou o pátio do colégio bem rápido, ou perderia o ônibus. Quando estava quase saindo, sentiu aquele puxão na mochila. Era Artur.
- Ei, cara. Eu queria conversar com você, lembra? Até te procurei na hora do intervalo, mas não te achei. É um lance meio sério…
- Cara, tem que ser agora? Eu to meio apressado…
- Pra ir pra casa? Meu pai te leva… sem problema. A gente conversa no caminho…
Marcos olhou para o relógio. Possivelmente já tinha perdido o ônibus. Se quisesse conversar com Luísa teria que ir de carro. Não tinha escolha. Mas tinha certeza que não conseguiria prestar atenção em uma palavra do que o amigo iria lhe dizer.
- Ok, vamos lá. Seu pai dirige rápido?
- Enlouquecidamente – disse Artur, sorrindo.
Withschia acompanhava os dois de perto. Não poderia perder aquela conversa. Marcos não esperava por aquilo que Artur iria lhe dizer. Nem em um milhão de anos. Com um movimento gracioso, abriu as asas brancas e seguiu os dois rapazes na direção da rua.
Luísa desceu do carro tempestuosamente. Estava extremamente chateada. Aquele buffet inútil! Qual era a dificuldade de arranjar um tapete vermelho para uma festa de aniversário? Dava vontade de… ah era melhor nem pensar. Se eu não tivesse classe… Pegou o elevador, e recostou-se na parede gelada de metal. Se dependesse dela, aquele dia acabaria ali mesmo. Um som estridente indicou que chegara ao seu andar. Luísa soltou um suspiro, e as portas se abriram.
Henth não conseguia se mexer. Estava preso firmemente entre duas mãos douradas, delicadas e a parede do elevador. Seus olhos cor de grafite estavam cheios de fúria, mas não podia fazer nada. Uma espada branca ameaçava sua imortalidade. Um rosto belo, cor de dourado, o olhava com uma expressão séria, acompanhado por uma voz idealmente lírica.
- Eles precisam conversar. E você não vai impedir isso.