UM PONTO PRETO NO MEIO DE UMA FOLHA EM BRANCO |SÍRIA GIOVENARDI

Quando sentimos dor de dente, esquecemos que temos 32 dentes.

Quando temos um vazamento no banheiro, esquecemos da casa toda.

Quando temos dor de cabeça, esquecemos que temos um corpo todo.

Quando temos uma preocupação, esquecemos de todas nossas outras incertezas.

Quando vivenciamos a depressão, esquecemos que temos outras emoções e sentimentos.

Esquecemos que existem outras muitas cores além do cinza. Esquecemos que temos uma face não apenas para deslizar lágrimas, mas também para estampar sorrisos.

Nossa relação com a depressão é egocêntrica. Somos “eu e ela”, isolamo-nos e isolamos os outros de nós.

Deixamos que a depressão assuma o controle do nosso ser e passamos a dizer “sou depressiva” e esquecemos que apenas “tenho depressão”.

Assim, a depressão passa a ser um estado de ser, imobilizando possibilidades, restringindo perspectivas, negando esperança e futuro, apagando sonhos e deixando apenas pesadelos.

E passamos a viver num quarto escuro, esquecendo que há uma lâmpada e um interruptor.

Nos reduzimos a um ponto preto numa folha em branco e esquecemos que podemos nos ver de outra perspectiva: uma folha em branco com um ponto preto no meio.

Síria Giovenardi | Psicóloga